Recuperação de Dependentes Químicos e Alcoolistas

A importância da família

Dependência Química / Álcool X Codependência

Onde você se encontra?

Muito se fala sobre o uso abusivo de álcool e drogas e o que a dependência química causa ao usuário problemas de saúde física e emocional, problemas sociais, problemas com a lei, entre outros. Porém através de estudos e da experiência de 34 anos da Comunidade Terapêutica Esquadrão da Vida no tratamento de dependentes de álcool e drogas, vemos como a família está implicada no desenvolvimento saudável, ou não, de seus membros, apontando para a complexa influência da família, da escola e do grupo de amigos no caso da manifestação do uso abusivo de drogas, principalmente na adolescência. E de como familiares e amigos, também são afetadas de várias formas, seja pelo sentimento de impotência por não saber como auxiliar o dependente químico, ou ao perceber que o seu amor e cuidado não são suficientes para que este deixe de fazer uso da substância da qual é dependente.

E é também neste contexto familiar do dependente químico que se desenvolve a codependência, que é compreendida como a tendência de viver focado no dependente químico, alienando-se de si mesmo. São apresentados comportamentos como minimização de problemas, tentativas de controlar, proteger e assumir a responsabilidade e as consequências dos atos do dependente químico. A codependência pode ser vivenciada por homens, mulheres, podendo ocorrer entre casais, ou na relação de pais com seus filhos, irmãos, relações de amizade, não estando restrita apenas aos familiares dependentes químicos.

A codependência se caracteriza por um distúrbio acompanhado de ansiedade, angústia e compulsão obsessiva em relação à vida do dependente químico. Pode-se dizer que familiares codependentes também apresentam uma forma de dependência, não de substâncias, mas sim do vínculo com o dependente químico. O codependente tem a intenção real de ajudar. Mas seu esforço tem pouco resultado ou resultado negativo, favorecendo que o ciclo de dependência e codependência não se rompam com facilidade. Enquanto o ciclo permanecer instável, os problemas e crises são administrados pelo codependente, e assim, o dependente químico tem condições de continuar o uso de drogas/álcool.

Nesta relação entre dependente químico e codependente, ambos fazem uso do outro para realizar suas próprias necessidades. O codependente tem a sua realização pessoal no papel de cuidador, que lhe dá um motivo para a existência. E o dependente químico encontra no codependente proteção, amparo e alguém para depositar as culpas e responsabilidades.

Como entender as fases da codependência:

  • Na primeira etapa, ocorre sempre o mecanismo de negação. Ocorre tensão e desentendimento e as pessoas deixam de falar sobre o que realmente pensam e sentem, não admitem e não aceitam que tal fato possa estar acontecendo na sua família, logo na sua família.
  • Em um segundo momento, a família demonstra extrema preocupação com essa questão e tenta controlar o uso da droga, bem como as suas conseqüências físicas, emocional, no campo do trabalho e no convívio social. Mentiras e cumplicidades relativas ao uso abusivo de álcool e drogas instauram um clima de segredo familiar. A regra é não falar do assunto, mantendo a terrível ilusão de que as drogas e álcool não estão causando problemas na família.
  • Na terceira fase, a desorganização da família é imensa. Seus membros assumem papéis rígidos e previsíveis, servindo de facilitadores. As famílias assumem responsabilidades de atos que não são seus, e assim o dependente químico deixa de ter a oportunidade de perceber as consequências do abuso de álcool e drogas. É comum ocorrer uma inversão de papéis e funções, como por exemplo, a esposa que passa a assumir todas as responsabilidades de casa em decorrência o alcoolismo do marido, ou a filha mais velha que passa a cuidar dos irmãos em consequência do uso de drogas da mãe.
  • O quarto estágio é caracterizado pela exaustão emocional, podendo surgir graves distúrbios de comportamento e de saúde em todos os membros. A situação fica insuportável, levando ao afastamento entre os membros e gerando desestruturação familiar. Embora tais estágios definam

Um padrão do impacto das substâncias, não se pode afirmar que em todas as famílias o processo será o mesmo, mas inevitavelmente existe uma tendência dos familiares de se sentirem culpados e envergonhados por estar nesta situação. Infelizmente, devido a estes sentimentos, muitas vezes a família demora muito tempo para admitir o problema e procurar ajuda externa e profissional, o que leva o problema a ser ainda mais agravado.

Geralmente, um eventual momento de internação foi antecedido por várias tentativas de recuperação com o objetivo de evitar uma internação. Provavelmente, houve a intenção e a esperança de acertar, mas, infelizmente não deu certo! Inicia-se então, uma intensa e cansativa busca de um tratamento adequado. Nesta fase a família já se encontra quase sempre esgotada, desestruturada, sem esperanças e completamente adoecida.

Assim sendo, no período de internação para tratamento do dependente de álcool/drogas, o codependente precisa perceber e reconhecer que seu relacionamento com o dependente químico é patológico, e que seus esforços em ajudá-lo e protegê-lo estão fadados ao fracasso, e o codependente somente pode iniciar a modificação de seu relacionamento patológico com o dependente químico a partir do reconhecimento desta compulsão. Devendo buscar ajuda com profissionais especializados, grupos de apoio que oriente e possa tratá-lo, e ter comprometimento com o processo de tratamento e orientações dadas dentro desse processo terapêutico.

Somos capazes de aprender outros comportamentos mais saudáveis? Podemos mudar?

A resposta é sim. Ao reconhecer e buscar tratamento, compreendendo a codependência, existe grandes chances de com uma nova postura auxiliarem o dependente químico de maneira efetiva todo esse processo de mudanças de Cognições e Comportamento.

Quanto mais rápida for à busca da conscientização para um melhor tratamento e acompanhamento, maiores serão as chances de melhora.

A família é fundamental no processo de recuperação e posterior manutenção na medida em que ajuda o dependente químico a resgatar valores, princípios e autoestima, mas, ao atuar como facilitadora e com atitudes inadequadas, poderá ser o disparo, que o levará à recaída de comportamentos, à irresponsabilidade e, certamente, ao uso de substâncias.

A constatação dessa dura realidade, ou seja, o deixar-se vencer pelo antigo ciclo, poderá levá-lo a sentimentos de menor-valia, desânimo, frustração e descrença na própria capacidade de recuperação. Independente do motivo que causou a dependência, a família não deve se envergonhar, se isolar, fazer julgamentos e reprovações, se apegar aos ressentimentos e, muito menos, fingir que o problema não existe. Estes comportamentos só farão com que se afaste da realidade dos fatos, dificultando e atrasando a busca adequada de soluções para enfrentar o problema.

Dependente químico/álcool e codependentes todos necessitam de ajuda! E neste caso, a família precisa se tratar e se fortalecer para possibilitar maiores chances de recuperação do dependente químico e manutenção de boa qualidade de vida para todos.

FONTE: Raquel Carranza Bolais Costa
Psicóloga - Terapeuta Cognitiva